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O que Faz um Engenheiro Biomédico: Um Dia na Vida de 5 Profissionais

Descubra o dia a dia real de 5 perfis da Engenharia Biomédica: do engenheiro clínico no hospital ao desenvolvedor de IA em saúde. Salários, competências e carreiras.

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17 de fevereiro de 2026
14 min de leitura

A pergunta "o que faz um engenheiro biomédico?" tem não uma, mas dezenas de respostas possíveis — porque poucos profissionais atuam em áreas tão diversas. Um engenheiro biomédico pode estar calibrando um tomógrafo às 7h da manhã em um hospital público, revisando o dossiê regulatório de um novo dispositivo na ANVISA ao meio-dia, ou treinando um modelo de inteligência artificial para detectar arritmias cardíacas à noite em uma startup. Todos são engenheiros biomédicos. Todos exercem a mesma profissão.

Para tornar essa diversidade concreta, este artigo apresenta o dia a dia real de cinco perfis típicos da profissão — do engenheiro clínico no chão do hospital ao pesquisador na fronteira da IA médica.

Este artigo faz parte do Guia Definitivo de Engenharia Biomédica. Volte ao guia para uma visão completa da profissão.

A definição oficial

Antes dos perfis, a definição formal. O Ministério do Trabalho, por meio da CBO 2143-80, descreve o Engenheiro Biomédico como o profissional que:

"Pesquisa, projeta, desenvolve e gerencia equipamentos, dispositivos e sistemas biomédicos, adequando-os às necessidades da assistência à saúde."

A Resolução CONFEA 1.103/2018 detalha três campos de competência:

  • Campo I — Dispositivos para assistência à motricidade, locomoção e função de órgãos (próteses, órteses, exoesqueletos, implantes)
  • Campo II — Instrumentos e equipamentos elétricos/eletrônicos para tecnologias em saúde, imagenologia, monitoração e sinais vitais
  • Campo III — Dispositivos médico-hospitalares e odontológicos para diagnóstico, tratamento e cirurgia

Na prática, essas atribuições se desdobram em pelo menos cinco carreiras distintas.

Perfil 1: O Engenheiro Clínico — o guardião da tecnologia hospitalar

O que faz

O engenheiro clínico é o profissional que gerencia todo o parque de equipamentos médicos de um hospital ou rede hospitalar. Isso inclui centenas ou milhares de dispositivos: ventiladores pulmonares, monitores multiparamétricos, desfibriladores, bombas de infusão, aparelhos de raio-X, tomógrafos, ressonâncias magnéticas, bisturis elétricos, autoclaves, entre muitos outros.

Um dia típico

7h00 — Chegada ao hospital. Verificação do sistema de gestão de equipamentos: há ordens de serviço pendentes da noite anterior? Algum equipamento crítico saiu de operação?

8h00 — Ronda pela UTI. Conferência de ventiladores e monitores. Um monitor multiparamétrico apresenta leitura instável de SpO2 — o engenheiro clínico diagnostica o problema (sensor óptico desgastado), providencia a substituição e documenta a intervenção no sistema.

9h30 — Reunião com a diretoria administrativa. Está em pauta a aquisição de dois novos aparelhos de ultrassom para o setor de emergência. O engenheiro clínico apresenta a análise técnica comparativa de três fabricantes: especificações, conformidade com normas IEC 60601, custo total de propriedade (aquisição + manutenção + consumíveis), condições de garantia e assistência técnica.

11h00 — Calibração preventiva de dois desfibriladores da UTI cardíaca, conforme cronograma de manutenção preventiva. Registro da ART (Anotação de Responsabilidade Técnica) no CREA.

14h00 — Treinamento da equipe de enfermagem no novo modelo de bomba de infusão recém-adquirido. Demonstração de operação, alarmes e procedimentos de segurança.

16h00 — Análise de um relatório de tecnovigilância: um modelo de oxímetro apresentou índice de falhas acima do esperado. O engenheiro prepara a notificação ao fabricante e, se necessário, ao sistema e-NOTIVISA da ANVISA.

Onde trabalha

Hospitais públicos e privados, clínicas de grande porte, redes de saúde (como Rede D'Or, Sírio-Libanês, Albert Einstein), secretarias estaduais e municipais de saúde. O Brasil possui mais de 6.500 hospitais, cada um demandando gestão tecnológica.

Faixa salarial

R$ 7.500 a R$ 14.000/mês, dependendo do porte do hospital e da região. Hospitais de grande porte e redes privadas pagam os melhores salários.

Perfil 2: O Engenheiro de Produto — da ideia ao dispositivo médico

O que faz

Trabalha na indústria de dispositivos médicos, projetando e desenvolvendo novos equipamentos — de monitores cardíacos a ventiladores pulmonares, de eletrocardiógrafos a sistemas de imagem. É o profissional que transforma uma necessidade clínica em um produto funcional, seguro e regulamentado.

Um dia típico

8h00 — Standup com a equipe de P&D. Revisão do sprint: o projeto de um novo módulo de capnografia (medição de CO2 expirado) para um monitor de paciente está na fase de prototipagem.

9h00 — Trabalho no laboratório de eletrônica. Análise dos resultados de testes do sensor de capnografia: resposta em frequência, precisão em diferentes concentrações de CO2, estabilidade térmica. Ajuste do firmware do microcontrolador.

11h00 — Reunião com o time de assuntos regulatórios. Discussão sobre os requisitos da norma IEC 60601-2-55 (norma particular para monitores de gases respiratórios). Verificação de que o design atende aos limites de segurança elétrica e precisão exigidos pela ANVISA para registro como dispositivo Classe II.

14h00 — Revisão da análise de risco (conforme ISO 14971). Identificação de um novo cenário de uso: o que acontece se o sensor for exposto a gases anestésicos? É necessário adicionar um filtro de proteção? Atualização da matriz de risco.

15h30 — Sessão de teste com um anestesista convidado (estudo de usabilidade conforme IEC 62366). Observação de como o médico interage com a interface do protótipo. Identificação de que um botão de calibração está mal posicionado — redesign necessário.

17h00 — Documentação técnica: atualização do Design History File (DHF) e relatório de verificação.

Onde trabalha

Empresas multinacionais (Philips Healthcare, GE Healthcare, Siemens Healthineers, Medtronic, Baxter, BD) e nacionais (Fanem, Instramed, Lifemed, Magnamed, BMR Medical). Também em startups de medtech.

Faixa salarial

R$ 8.000 a R$ 16.000/mês. Multinacionais em São Paulo pagam os valores mais altos, com benefícios adicionais (bônus, stock options em startups, plano de saúde premium).

Perfil 3: O Especialista em Assuntos Regulatórios — a ponte entre tecnologia e ANVISA

O que faz

É o profissional responsável por preparar, submeter e acompanhar o registro de dispositivos médicos na ANVISA (no Brasil), FDA (EUA) ou organismos notificados (Europa). Garante que os produtos estejam em conformidade com todas as normas e regulamentações aplicáveis antes de chegarem ao mercado.

Um dia típico

8h30 — Revisão do dossiê técnico para registro de um novo equipamento Classe III na ANVISA (RDC 751/2022). Verificação da completude: relatório de análise de risco (ISO 14971), relatório de testes de segurança elétrica (IEC 60601-1), dados de biocompatibilidade (ISO 10993), manual do usuário, rotulagem.

10h00 — Videoconferência com a equipe da matriz (para multinacionais) ou com o laboratório de ensaios (para nacionais). Discussão sobre uma exigência técnica da ANVISA: a agência solicitou dados adicionais sobre compatibilidade eletromagnética (EMC). Coordenação de testes complementares conforme IEC 60601-1-2.

11h30 — Atualização do sistema de gestão da qualidade (SGQ) conforme ISO 13485. Auditoria interna prevista para o próximo mês — preparação da documentação.

14h00 — Monitoramento de notificações de tecnovigilância no sistema NOTIVISA. Análise de uma reclamação técnica de um hospital: um equipamento apresentou alarme falso. Classificação do evento, investigação de causa raiz e resposta formal.

15h30 — Acompanhamento da consulta pública da ANVISA sobre nova regulamentação de Software como Dispositivo Médico (SaMD). Preparação de contribuições em nome da empresa.

17h00 — Estudo da RDC 848/2024 (requisitos essenciais de segurança e desempenho) para um novo projeto que está em fase inicial de concepção.

Onde trabalha

Departamentos de Regulatory Affairs de empresas de dispositivos médicos, consultorias especializadas em registro ANVISA, a própria ANVISA (concurso público) e escritórios jurídicos especializados em saúde.

Faixa salarial

R$ 9.000 a R$ 18.000/mês. É uma das áreas mais bem remuneradas, especialmente em multinacionais, devido à combinação rara de conhecimento técnico e regulatório.

Perfil 4: O Desenvolvedor de IA em Saúde — na fronteira da inovação

O que faz

Desenvolve algoritmos de machine learning e deep learning para aplicações em saúde: diagnóstico por imagem (detecção de tumores, fraturas, pneumonia), predição de doenças (risco de sepse, readmissão hospitalar), análise de sinais biomédicos (ECG, EEG) e sistemas de apoio à decisão clínica.

Um dia típico

9h00 — Revisão de métricas do modelo de detecção de nódulos pulmonares em tomografias de tórax. O modelo atingiu sensibilidade de 94% e especificidade de 91% no dataset de validação — mas o engenheiro identifica viés: o modelo performa pior em imagens de aparelhos mais antigos. É necessário aumentar a diversidade do dataset de treino.

10h30 — Reunião com radiologistas do hospital parceiro. Apresentação dos resultados e discussão sobre casos de falso positivo. Os médicos apontam que certas opacidades inflamatórias estão sendo classificadas como nódulos. Ajuste nos critérios de ground truth.

12h00 — Code review com outro engenheiro. Revisão da pipeline de pré-processamento de imagens DICOM: normalização, windowing, augmentation. Discussão sobre a melhor arquitetura de rede neural (ResNet vs. EfficientNet vs. Vision Transformer).

14h00 — Trabalho no ambiente de cloud computing: treinamento de nova versão do modelo usando GPU. Monitoramento de loss e métricas de validação.

15h30 — Documentação regulatória. Como o software é classificado como SaMD (Software as a Medical Device, RDC 657/2022), é necessário preparar documentação de validação clínica e análise de risco específica para software (IEC 62304). Discussão com o time regulatório sobre a classificação de risco.

17h00 — Leitura de artigo publicado na Nature Medicine sobre um novo approach de few-shot learning para detecção de doenças raras em imagens médicas.

Onde trabalha

Startups de IA em saúde (Neomed, Harpia Health, Neuralmed, Portal Telemedicina), departamentos de inovação de hospitais (InovaHC, Eretz.bio/Einstein), empresas de tecnologia com divisão de saúde, centros de pesquisa (CIIA-Saúde/UFMG, MICLab/UNICAMP) e universidades.

Faixa salarial

R$ 10.000 a R$ 25.000/mês. É a área com maior teto salarial na Engenharia Biomédica, especialmente em startups com funding ou empresas de tecnologia. Profissionais com experiência em deep learning e publicações relevantes são disputados.

Perfil 5: O Pesquisador Acadêmico — gerando o conhecimento de base

O que faz

Conduz pesquisa original em universidades e centros de pesquisa, publica artigos em periódicos científicos, orienta alunos de mestrado e doutorado, leciona na graduação e pós-graduação e busca financiamento para seus projetos junto a agências como FAPESP, CNPq, FINEP e EMBRAPII.

Um dia típico

8h00 — Aula de Processamento de Imagens Médicas para a turma de 7º semestre da graduação. Demonstração prática de segmentação de imagens cerebrais usando Python e a biblioteca ITK.

10h00 — Reunião de orientação com aluna de mestrado. Discussão dos resultados preliminares do projeto de detecção automatizada de retinopatia diabética em fundoscopia. A acurácia ainda está em 87% — abaixo do estado da arte (92%). Análise conjunta de possíveis melhorias no modelo.

11h30 — Revisão de artigo para o periódico Research on Biomedical Engineering (RBE). O paper propõe uma nova técnica de compressão para sinais de ECG em dispositivos wearables — o pesquisador verifica a metodologia, os resultados estatísticos e a originalidade da contribuição.

14h00 — Trabalho no laboratório. Coleta de dados em parceria com o hospital universitário: aquisição de 200 exames de ressonância magnética de pacientes com epilepsia, sob aprovação do comitê de ética (CEP).

16h00 — Escrita de proposta de financiamento para edital FAPESP Auxílio Regular. O projeto propõe usar técnicas de aprendizado federado para treinar modelos de IA com dados de múltiplos hospitais sem compartilhar dados de pacientes — abordando o desafio da privacidade (LGPD) na IA médica.

18h00 — Resposta a e-mails de colaboradores internacionais (grupo de pesquisa em imageamento médico na Technical University of Munich).

Onde trabalha

Universidades (UFRJ, UNICAMP, USP, UFPE, UFABC, UFU, UFRN, etc.), centros de pesquisa (CEB/UNICAMP, LEB/USP, NUTES-UEPB, SENAI CIMATEC) e institutos de inovação (InovaHC, SUPERA Parque).

Faixa salarial

Para docentes em universidades federais: R$ 10.000 a R$ 22.000/mês (regime DE, variando conforme titulação e progressão na carreira). A pesquisa também gera receita via bolsas de produtividade CNPq, projetos financiados e consultorias.

Outras carreiras que absorvem engenheiros biomédicos

Além dos cinco perfis detalhados acima, engenheiros biomédicos também atuam como:

Engenheiro de Aplicação — Profissional que faz a interface entre a empresa fabricante e os clientes (hospitais). Demonstra equipamentos, treina equipes clínicas e dá suporte técnico avançado. Viaja constantemente.

Consultor em Engenharia Clínica — Profissional autônomo que presta serviços a hospitais de médio e pequeno porte que não possuem equipe interna de engenharia clínica.

Gestor de Tecnologia em Saúde — Atua em secretarias estaduais e municipais de saúde, coordenando a aquisição e distribuição de equipamentos para a rede pública.

Empreendedor/Fundador de Healthtech — Muitos engenheiros biomédicos fundam suas próprias startups. A Magnamed (ventiladores, 40+ países) foi fundada por 3 engenheiros. A brain4care (neuromonitoramento, clearance FDA) nasceu em São Carlos/SP.

Analista de Qualidade — Implementa e mantém sistemas de gestão da qualidade (ISO 13485, BPF/ANVISA) em empresas fabricantes de dispositivos médicos.

Competências mais valorizadas pelo mercado em 2026

Independentemente do perfil escolhido, algumas competências são transversais e cada vez mais valorizadas:

Técnicas: Programação (Python, MATLAB, C/C++), processamento de sinais e imagens, machine learning, eletrônica, conhecimento de normas (IEC 60601, ISO 13485, ISO 14971), gestão de projetos.

Regulatórias: Familiaridade com o arcabouço da ANVISA (RDCs), processos de registro de dispositivos, LGPD aplicada a dados de saúde, SaMD (RDC 657/2022).

Interpessoais: Capacidade de traduzir linguagem técnica para equipes clínicas, trabalho interdisciplinar (engenheiros + médicos + enfermeiros + gestores), comunicação escrita para documentação regulatória.

Idiomas: Inglês técnico é essencial (normas, artigos científicos e manuais são predominantemente em inglês). Espanhol é um diferencial para empresas com atuação na América Latina.

Resumo: qual perfil combina com você?

PerfilIdeal para quem gosta de...Salário médio
Engenheiro ClínicoHospital, hands-on, gestão de equipamentosR$ 7.500–14.000
Engenheiro de ProdutoP&D, criar coisas novas, laboratórioR$ 8.000–16.000
RegulatórioNormas, documentação, interface com ANVISAR$ 9.000–18.000
IA em SaúdeProgramação, dados, machine learningR$ 10.000–25.000
PesquisadorAcademia, publicações, ensinoR$ 10.000–22.000

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Publicado por engenhariabiomedica.com

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