História

A História Completa da Engenharia Biomédica no Brasil: de 1971 aos Dias Atuais

De uma única pós-graduação na COPPE/UFRJ em 1971 até os 27 cursos de graduação, 1.919 healthtechs e um mercado de R$ 26,1 bilhões — a trajetória completa da Engenharia Biomédica no Brasil.

História
17 de fevereiro de 2026
12 min de leitura

De uma única pós-graduação criada numa sala da COPPE/UFRJ em 1971 até os 27 cursos de graduação, 1.919 healthtechs e um mercado de R$ 26,1 bilhões de 2024 — a trajetória da Engenharia Biomédica no Brasil é uma história de persistência, visão de futuro e consolidação acelerada. Este artigo reconstrói essa jornada de mais de cinco décadas, com datas, nomes e marcos que moldaram a profissão que hoje está no centro da transformação tecnológica da saúde brasileira.

Este artigo faz parte do Guia Definitivo de Engenharia Biomédica. Volte ao guia para uma visão completa da profissão.

O contexto mundial: como tudo começou

Antes de falar do Brasil, é preciso entender o cenário internacional. A Engenharia Biomédica como disciplina acadêmica formalizada nasceu nos Estados Unidos na década de 1950-1960, quando engenheiros elétricos e mecânicos começaram a aplicar seus conhecimentos a problemas médicos de forma sistemática.

O primeiro programa de doutorado em Biomedical Engineering foi criado na Drexel University em 1959. A Johns Hopkins University fundou seu departamento em 1962. A Biomedical Engineering Society (BMES) foi estabelecida em 1968, e a IEEE Engineering in Medicine and Biology Society (EMBS) já operava desde os anos 1950 como grupo técnico do IEEE.

Na Europa, a Engenharia Biomédica se desenvolveu em paralelo, com forte presença na Alemanha, Reino Unido e Suécia. A International Federation for Medical and Biological Engineering (IFMBE) foi fundada em 1959 para coordenar esforços internacionais.

O Brasil entrou nesse cenário com uma década de atraso em relação aos EUA — mas com uma vantagem: aprendeu com os pioneiros americanos e europeus que vieram lecionar no país.

Fase 1: Os pioneiros da pós-graduação (1971–2000)

1971 — Nasce o PEB/COPPE/UFRJ

O Programa de Engenharia Biomédica (PEB) foi criado em 1971 na COPPE/UFRJ como o 10º programa da instituição. A decisão de criá-lo refletia a percepção de que o Brasil precisava dominar a tecnologia por trás dos equipamentos médicos que importava — e que isso só seria possível formando pesquisadores na interface entre engenharia e medicina.

Os primeiros professores vieram dos Estados Unidos e da Inglaterra, trazendo metodologias de pesquisa e conexões com centros internacionais de ponta. O PEB se tornou o berço da Engenharia Biomédica brasileira, formando as gerações subsequentes de pesquisadores e docentes que fundaram programas em outras universidades.

Ao longo de mais de 50 anos, o PEB formou 509+ mestres e 165+ doutores, e alcançou conceito 6 na avaliação CAPES — o nível de excelência, o mais alto entre todos os programas específicos de Engenharia Biomédica no país.

1974-1982 — A UNICAMP entra em cena

A UNICAMP iniciou atividades em Engenharia Biomédica em 1974, com pesquisadores ligados à Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC). Em 1982, foi oficialmente criado o Centro de Engenharia Biomédica (CEB), que se tornaria referência em instrumentação biomédica, processamento de imagens médicas e física médica.

No mesmo ano de 1982, foi lançada a Revista Brasileira de Engenharia Biomédica — hoje rebatizada como Research on Biomedical Engineering (RBE) —, o principal periódico científico da área no país.

1975 — Fundação da SBEB: a área ganha identidade

Em 18 de dezembro de 1975, foi fundada a Sociedade Brasileira de Engenharia Biomédica (SBEB), dando à área uma identidade institucional própria. A primeira diretoria reuniu nomes que transcendem a engenharia: Euryclides de Jesus Zerbini, responsável pelo primeiro transplante de coração no Brasil (1968), e Adib Jatene, cirurgião cardíaco que viria a ser Ministro da Saúde.

A presença de cirurgiões cardíacos na fundação da SBEB não é coincidência — a cardiologia era a fronteira onde tecnologia e medicina mais se entrelaçavam nos anos 1970, com marca-passos, desfibriladores e monitores cardíacos exigindo engenheiros que compreendessem tanto circuitos quanto fisiologia.

A partir de 1975, a SBEB passou a organizar o Congresso Brasileiro de Engenharia Biomédica (CBEB), realizado bienalmente e que se tornaria o principal evento científico da área no Brasil e na América Latina.

1981 — O LEB da USP

Na Escola Politécnica da USP, os professores André Fabio Kohn e José Carlos Teixeira Moraes fundaram em 1981 o Laboratório de Engenharia Biomédica (LEB). O laboratório se destacou por criar a primeira Divisão de Ensaios e Normativos em universidade pública brasileira para avaliação de equipamentos médicos — uma iniciativa que antecipou em décadas a preocupação atual com certificação e segurança de dispositivos.

Anos 1980-1990 — Expansão silenciosa da pós-graduação

Durante as décadas de 1980 e 1990, a Engenharia Biomédica brasileira cresceu exclusivamente pela pós-graduação. Novos programas e linhas de pesquisa surgiram:

  • UFSC — Instituto de Engenharia Biomédica (IEB-UFSC), dentro do PPG em Engenharia Elétrica
  • USP São Carlos — PPG Interunidades em Bioengenharia
  • UFPE — Linhas de pesquisa em engenharia biomédica no Departamento de Eletrônica
  • UFMG — Pesquisa em processamento de sinais biomédicos

Essa fase foi crucial: formou o corpo docente que, na década seguinte, abriria os primeiros cursos de graduação. Os mestres e doutores formados na COPPE, UNICAMP e USP foram os fundadores dos programas de graduação que viriam a partir de 2001.

Fase 2: Nascimento das graduações (2001–2009)

2001 — UNIVAP e UFPE: os dois primeiros cursos

O ano de 2001 marca o início da graduação em Engenharia Biomédica no Brasil, com dois cursos inaugurais:

A UNIVAP (Universidade do Vale do Paraíba, São José dos Campos/SP) criou o primeiro curso de bacharelado do país, formando a primeira turma em 2005. A localização em São José dos Campos — polo aeroespacial e tecnológico — não foi acidental: a cidade já reunia infraestrutura de pesquisa em engenharia e proximidade com o INPE e o ITA.

A UFPE (Universidade Federal de Pernambuco, Recife/PE) tornou-se a pioneira entre as universidades públicas, lançando seu curso no mesmo ano. A UFPE já possuía tradição em pesquisa de engenharia biomédica no Departamento de Eletrônica, o que facilitou a transição para a graduação.

2002-2009 — As federais aderem

Nos anos seguintes, outras universidades federais criaram seus cursos:

  • UFU (Uberlândia/MG) — por volta de 2002, uma das primeiras federais
  • UFABC (São Bernardo do Campo/SP) — aproximadamente 2009, com modelo inovador de ingresso via Bacharelado em Ciência e Tecnologia (BC&T) e 125 vagas
  • UFSJ (São João del-Rei/MG), UFPA (Belém/PA), UFRN (Natal/RN) e UNIFESP (São José dos Campos/SP) — entre 2009 e 2010

2007-2008 — A regulamentação profissional

Paralelamente à expansão dos cursos, a profissão conquistou reconhecimento formal:

Em 2007, o sistema CONFEA/CREA regulamentou o exercício profissional do engenheiro biomédico, inserindo-o no arcabouço legal das engenharias.

Em 2008, a Decisão Plenária PL-0034/2008 do CONFEA inseriu o título "Engenheiro Biomédico" na Tabela de Títulos Profissionais, com código 121-12-00, classificado no grupo Engenharia, modalidade Eletricista. A partir desse momento, formados em Engenharia Biomédica passaram a ter um título reconhecido para registro no CREA e emissão de ART.

Fase 3: Expansão acelerada e consolidação (2010–presente)

De 6 para 27 cursos em 14 anos

A década de 2010 assistiu à maior expansão da história da Engenharia Biomédica no Brasil. O número de cursos de graduação saltou de aproximadamente 6 em 2010 para 27 em 2024 — um crescimento de 350% em 14 anos, um dos maiores entre todas as modalidades de engenharia no país.

Esse crescimento foi impulsionado por três fatores:

Primeiro, a demanda do mercado: o setor de dispositivos médicos crescia a dois dígitos, e hospitais brasileiros passavam por processos de modernização tecnológica que exigiam profissionais qualificados.

Segundo, as políticas públicas de saúde: o Programa Nacional de Gestão de Equipamentos Médicos (2010), a Estratégia Nacional de Saúde Digital e investimentos do BNDES, FINEP e EMBRAPII sinalizaram que saúde e tecnologia seriam prioridades governamentais.

Terceiro, a pandemia de COVID-19 (2020-2022): embora tenha sido uma tragédia, a pandemia tornou visceralmente evidente a importância de engenheiros que pudessem projetar, manter e escalar equipamentos como ventiladores pulmonares. A Magnamed, startup fundada por três engenheiros em Cotia/SP, multiplicou sua produção de ventiladores durante a crise, tornando-se símbolo do potencial da engenharia biomédica brasileira.

2018 — Resolução CONFEA 1.103

A Resolução CONFEA nº 1.103/2018, publicada no DOU em 8 de agosto de 2018, representou um marco ao detalhar as atividades e competências profissionais do engenheiro biomédico em três campos específicos:

  • Campo I — Dispositivos para assistência à motricidade, locomoção e função de órgãos
  • Campo II — Instrumentos e equipamentos elétricos, eletrônicos e eletromecânicos para tecnologias em saúde, imagenologia, monitoração e sinais vitais
  • Campo III — Dispositivos e equipamentos médico-hospitalares e odontológicos para diagnóstico, tratamento e cirurgia

Esta resolução permanece em pleno vigor até fevereiro de 2026, sem emendas.

2022 — Reconhecimento pelo Ministério do Trabalho

Em 2022, o Ministério do Trabalho e Previdência incluiu oficialmente o "Engenheiro Biomédico" na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) sob o código 2143-80, em trabalho conjunto com a FIPE/USP. O sinônimo oficial registrado é "Engenheiro Clínico". Esse reconhecimento completou o ciclo regulatório: o profissional agora possui título no CONFEA (2008), atribuições detalhadas (2018) e classificação ocupacional oficial (2022).

2020-2026 — A era das healthtechs e da IA

Os anos mais recentes consolidaram a Engenharia Biomédica como protagonista na transformação digital da saúde:

  • 1.919 healthtechs mapeadas no Brasil, com o país concentrando 64,8% do ecossistema latino-americano
  • Investimentos de US$ 253,7 milhões em healthtechs na AL em 2024 (+37,6%)
  • 17% dos médicos brasileiros já usando IA generativa na prática clínica
  • A brain4care (São Carlos/SP) obteve clearance FDA 510(k) para monitoramento não invasivo de pressão intracraniana — uma tecnologia brasileira aprovada pelo regulador americano
  • A ANS tornou obrigatória a cobertura de cirurgia robótica pelos planos de saúde a partir de abril de 2026

2025-2026 — 50 anos da SBEB e o CBEB em Fortaleza

A SBEB completou 50 anos em dezembro de 2025. Para celebrar, a 30ª edição do CBEB acontecerá de 28 de setembro a 2 de outubro de 2026 em Fortaleza/CE. O programa inclui convidados do MIT, competição de inovação BioChallenge e pitchs de startups.

Linha do tempo resumida

Ano Marco
1959Primeiro doutorado em Biomedical Engineering (Drexel University, EUA)
1968Fundação da BMES (EUA)
1971Criação do PEB/COPPE/UFRJ — nasce a EB no Brasil
1974UNICAMP inicia atividades em EB
1975Fundação da SBEB (Zerbini e Jatene entre os fundadores)
1981Fundação do LEB/USP
1982Criação do CEB/UNICAMP; lançamento da Revista Brasileira de EB
2001Primeiros cursos de graduação: UNIVAP e UFPE
2007CONFEA/CREA regulamenta a profissão
2008Título inserido na Tabela do CONFEA (PL-0034/2008)
2009-2010UFABC, UFSJ, UFPA, UFRN e UNIFESP abrem cursos
2010-2024Cursos saltam de ~6 para 27
2018Resolução CONFEA 1.103 detalha atribuições
2020-2022Pandemia acelera demanda por engenheiros biomédicos
2022Ministério do Trabalho reconhece a profissão (CBO 2143-80)
2024Mercado de dispositivos médicos atinge R$ 26,1 bi; 1.919 healthtechs
2025SBEB completa 50 anos
202630º CBEB em Fortaleza; cirurgia robótica torna-se cobertura obrigatória

O que a história nos diz sobre o futuro

Três padrões emergem desta trajetória de cinco décadas.

O primeiro é que a pós-graduação antecipou a graduação em 30 anos — os pesquisadores formados nas décadas de 1970-1990 foram os que viabilizaram os cursos de graduação a partir de 2001. Isso sugere que as áreas de ponta da pós-graduação de hoje (IA em saúde, bioimpressão 3D, gêmeos digitais) podem se tornar disciplinas obrigatórias de graduação na próxima década.

O segundo é que a regulamentação sempre acompanhou — nunca liderou — o desenvolvimento da área. Os cursos existiram por 6 anos antes da regulamentação do CONFEA (2007), e a profissão operou por 14 anos antes do reconhecimento do MTE (2022). Isso é relevante para áreas emergentes como IA médica e Software como Dispositivo Médico, que hoje operam em ambientes regulatórios ainda em construção.

O terceiro é que crises aceleram a adoção: a pandemia de COVID-19 fez mais pela visibilidade da Engenharia Biomédica em 2 anos do que as duas décadas anteriores combinadas. O próximo grande acelerador pode ser a transformação digital do SUS, com o programa Saúde Digital investindo centenas de milhões em tecnologia.

A Engenharia Biomédica brasileira passou de uma sala na COPPE em 1971 para um ecossistema de bilhões em 2026. Os próximos 50 anos prometem ser ainda mais transformadores.

Referências

  • SBEB — sbeb.org.br (histórico institucional e lista de congressos)
  • PEB/COPPE/UFRJ — peb.ufrj.br
  • CEB/UNICAMP — ceb.unicamp.br
  • CONFEA — confea.org.br (Decisão PL-0034/2008 e Resolução 1.103/2018)
  • MTE — Classificação Brasileira de Ocupações (CBO 2143-80)
  • ABIMO — abimo.org.br (dados do setor de dispositivos médicos)
  • Tracxn, Distrito — dados de healthtechs

Volte ao Guia Definitivo de Engenharia Biomédica para explorar todas as seções.

Gostou deste artigo?

Receba conteúdos como este diretamente no seu e-mail.

Assinar newsletter