Formação

Grade Curricular de Engenharia Biomédica: Disciplina por Disciplina

Grade curricular completa do curso de Engenharia Biomédica: todas as disciplinas do ciclo básico ao profissionalizante, com descrição de conteúdo e relevância.

Formação
17 de fevereiro de 2026
15 min de leitura

A grade curricular de Engenharia Biomédica é uma das mais interdisciplinares entre todas as engenharias do Brasil. Em um mesmo semestre, o estudante pode ter aula de Circuitos Elétricos pela manhã e Anatomia Humana à tarde — uma combinação que não existe em nenhum outro curso.

Este artigo detalha todas as disciplinas típicas da formação, organizadas por semestre e bloco temático, com descrição do conteúdo e da relevância para a carreira. As informações são baseadas nas grades curriculares da UFABC, UFPE, UFU, PUC-PR e INATEL — as instituições com programas mais consolidados.

Este artigo faz parte do Guia Definitivo de Engenharia Biomédica.

Estrutura geral

Característica Detalhes
Duração 5 anos (10 semestres)
Carga horária mínima 3.600 horas (muitas instituições ultrapassam 4.000h)
Estágio obrigatório 160 a 168 horas mínimas
TCC Obrigatório (geralmente dividido em 2 semestres)
Atividades complementares 100 a 200 horas (congressos, IC, extensão)
Período Predominantemente integral (manhã e tarde)

A grade se organiza em três grandes blocos: ciclo básico (fundamentos de exatas e biológicas), disciplinas profissionalizantes (engenharia aplicada à saúde) e disciplinas de integração (estágio, TCC, eletivas).

Bloco 1: Ciclo básico (1º ao 4º semestre)

O ciclo básico constrói as fundações sobre as quais toda a formação profissional será erguida. Divide-se em três eixos: ciências exatas, ciências biológicas e computação.

Eixo de Ciências Exatas

Cálculo Diferencial e Integral 1, 2 e 3

A espinha dorsal de qualquer engenharia. Cálculo 1 cobre limites, derivadas e integrais de uma variável. Cálculo 2 introduz séries, sequências e integrais impróprias. Cálculo 3 aborda integrais múltiplas, campos vetoriais e teoremas de Green, Stokes e Gauss. Na Engenharia Biomédica, cálculo é usado para modelar sinais biomédicos, descrever campos eletromagnéticos (base da ressonância magnética) e equacionar fenômenos de transporte em tecidos biológicos.

Álgebra Linear e Geometria Analítica

Vetores, matrizes, autovalores, transformações lineares e espaços vetoriais. Essencial para processamento de sinais e imagens (transformadas de Fourier, decomposição em componentes principais), machine learning (álgebra de matrizes é o coração dos modelos de IA) e biomecânica (análise de forças em estruturas ósseas e articulações).

Probabilidade e Estatística

Distribuições de probabilidade, inferência estatística, testes de hipótese, regressão. Aplicado em análise de dados clínicos, bioestatística, validação de dispositivos médicos, controle de qualidade e pesquisa científica. Todo engenheiro biomédico precisa saber analisar dados — desde resultados de testes de segurança elétrica até dados de ensaios clínicos.

Física 1 (Mecânica)

Cinemática, dinâmica, leis de Newton, energia, momento, oscilações. Base da biomecânica: análise de forças em articulações, projeto de próteses, estudo de marcha humana.

Física 2 (Ondas e Termodinâmica)

Ondas mecânicas, acústica, termodinâmica. Base do ultrassom diagnóstico (princípio do efeito Doppler), da física de fluidos biológicos e da transferência de calor em dispositivos médicos.

Física 3 (Eletromagnetismo)

Campos elétricos e magnéticos, lei de Gauss, lei de Ampère, indução eletromagnética, ondas eletromagnéticas. Base direta de equipamentos que geram ou medem campos: ressonância magnética (campo magnético estático + radiofrequência), eletrocardiógrafos e eletroencefalógrafos (medem campos elétricos do corpo), equipamentos de diatermia e ablação por radiofrequência.

Física 4 (Óptica e Física Moderna)

Óptica geométrica e ondulatória, laser, radiação, física quântica básica. Base de endoscópios, microscópios, sistemas ópticos de diagnóstico, laser cirúrgico, fotônica médica e biofotônica.

Química Geral

Estrutura atômica, ligações químicas, soluções, equilíbrio, eletroquímica. Base para biomateriais (propriedades químicas de materiais implantáveis), biossensores e sistemas de liberação de fármacos.

Eixo de Ciências Biológicas

Anatomia Humana

Estudo sistemático da estrutura do corpo humano: sistemas esquelético, muscular, cardiovascular, respiratório, digestivo, nervoso, urinário e reprodutor. Geralmente inclui prática em laboratório de anatomia com peças cadavéricas ou modelos anatômicos. É a disciplina que diferencia o engenheiro biomédico de qualquer outro engenheiro — você precisa conhecer o corpo para projetar tecnologia para ele.

Biologia Celular / Histologia

Estrutura e função da célula, organelas, tecidos. Base para biomateriais (interação célula-material), engenharia de tecidos e bioimpressão 3D.

Bioquímica

Proteínas, enzimas, metabolismo, ácidos nucleicos. Base para biossensores (detecção de marcadores bioquímicos), diagnóstico in vitro e farmacologia.

Fisiologia Humana

Funcionamento dos sistemas do corpo: cardiovascular, respiratório, nervoso, renal, endócrino, muscular. É talvez a disciplina biológica mais importante do curso: para projetar um monitor de sinais vitais, você precisa entender como o coração gera sinais elétricos; para projetar um ventilador, precisa entender a mecânica respiratória; para processar um EEG, precisa entender como o cérebro funciona.

Eixo de Computação

Algoritmos e Programação

Lógica de programação, estruturas de dados, algoritmos fundamentais. Linguagens comuns: Python, C/C++, MATLAB. A programação é cada vez mais central na Engenharia Biomédica — de scripts de análise de dados a algoritmos de IA para diagnóstico.

Desenho Técnico / CAD

Representação gráfica de projetos, normas de desenho, modelagem em software CAD (SolidWorks, AutoCAD). Aplicado ao projeto de dispositivos, próteses, órteses e componentes de equipamentos.

Bloco 2: Disciplinas profissionalizantes (4º ao 8º semestre)

Aqui o curso se torna genuinamente Engenharia Biomédica. As disciplinas aplicam os fundamentos do ciclo básico a problemas reais de saúde.

Eletrônica e Sistemas

Circuitos Elétricos 1 e 2

Análise de circuitos DC e AC, leis de Kirchhoff, impedância, resposta em frequência, filtros passivos. Base de todo projeto de instrumentação biomédica.

Eletrônica Analógica

Amplificadores operacionais, transistores, fontes de alimentação, filtros ativos. O amplificador de instrumentação é o "coração" de qualquer equipamento que mede sinais biológicos — um ECG amplifica sinais de ~1 mV com rejeição de modo comum superior a 80 dB.

Eletrônica Digital

Portas lógicas, flip-flops, contadores, conversores A/D e D/A, memórias, máquinas de estado. Base de circuitos digitais em equipamentos médicos.

Sinais e Sistemas

Transformada de Fourier, Laplace, Z. Análise de sistemas lineares no domínio do tempo e da frequência. Disciplina fundamental para processamento de sinais biomédicos.

Microprocessadores e Sistemas Embarcados

Programação de microcontroladores (Arduino, ARM, ESP32), interfaces com sensores, protocolos de comunicação (SPI, I2C, UART), firmware. Essencial para o desenvolvimento de dispositivos médicos portáteis e wearables.

Disciplinas-chave de Engenharia Biomédica

Instrumentação Biomédica

A disciplina mais emblemática do curso. Estuda como projetar sistemas de aquisição de sinais biológicos: eletrocardiógrafos, eletroencefalógrafos, eletromiógrafos, oxímetros de pulso, monitores de pressão. Aborda eletrodos, amplificação diferencial, filtragem, segurança elétrica do paciente, normas IEC 60601.

Processamento Digital de Sinais Biomédicos

Filtragem digital (FIR/IIR), análise espectral (FFT), wavelets, detecção de eventos (complexo QRS no ECG, spikes no EEG), análise de variabilidade da frequência cardíaca (HRV). Combina a teoria de Sinais e Sistemas com aplicações clínicas reais.

Processamento de Imagens Médicas

Formatos de imagem médica (DICOM), pré-processamento, segmentação (thresholding, região, watershed, deep learning), registro de imagens, reconstrução 3D, padrões PACS. Trabalha com imagens de tomografia, ressonância magnética, ultrassom, raio-X, PET-CT.

Engenharia Clínica

Gestão de tecnologia em saúde: planejamento do parque tecnológico, aquisição de equipamentos, manutenção preventiva e corretiva, indicadores de desempenho, gestão de contratos, análise de custo total de propriedade, tecnovigilância. A ponte entre engenharia e administração hospitalar.

Biomecânica

Cinemática e dinâmica do corpo humano, análise de marcha, forças em articulações, mecânica dos materiais biológicos (osso, cartilagem, ligamento, músculo), método dos elementos finitos aplicado a estruturas biológicas, projeto de próteses e implantes.

Biomateriais e Biocompatibilidade

Materiais metálicos (titânio, aço inoxidável, cobalto-cromo), cerâmicos (hidroxiapatita, zircônia), poliméricos (silicone, PEEK, PTFE) e compósitos para uso no corpo humano. Testes de biocompatibilidade (ISO 10993), degradação, corrosão, desgaste. Scaffolds e materiais para engenharia de tecidos.

Engenharia de Tecidos

Princípios de cultura celular, scaffolds biodegradáveis, bioimpressão 3D, medicina regenerativa, terapia celular, órgãos artificiais. Interface entre biologia celular e engenharia de materiais.

Informática em Saúde

Prontuário eletrônico do paciente (PEP), sistemas de informação hospitalar (HIS), padrões de interoperabilidade (HL7, FHIR, DICOM), telemedicina, saúde digital, LGPD aplicada a dados de saúde.

Modelagem de Sistemas Biomédicos

Modelagem matemática de sistemas fisiológicos: modelo de Windkessel (sistema cardiovascular), modelo de compartimentos (farmacocinética), modelo de Hodgkin-Huxley (potencial de ação nervoso), modelagem computacional de órgãos.

Biofísica

Interface entre física e biologia: bioeletricidade (potenciais de membrana, propagação de impulsos nervosos), biomecânica de fluidos (hemodinâmica), radiobiologia, dosimetria, interação da radiação com tecidos.

Dispositivos Implantáveis e Próteses

Marcapassos, stents, válvulas cardíacas artificiais, implantes cocleares, próteses de quadril e joelho, implantes dentários. Projeto, seleção de materiais, esterilização, requisitos regulatórios e acompanhamento pós-implantação.

Metrologia Biomédica

Calibração de equipamentos médicos, incerteza de medição, rastreabilidade metrológica, ensaios de segurança elétrica, conformidade com normas IEC 60601. Essencial para engenharia clínica e laboratórios de ensaio.

Regulação de Produtos para Saúde

Marco regulatório da ANVISA (RDC 751/2022, RDC 665/2022), classes de risco (I a IV), processo de registro e notificação, Boas Práticas de Fabricação (BPF), ISO 13485, ISO 14971, tecnovigilância, SaMD (RDC 657/2022). Disciplina com demanda crescente pelo mercado.

Inteligência Artificial aplicada à Saúde

Machine learning supervisionado e não supervisionado, redes neurais convolucionais (CNN) para imagens médicas, processamento de linguagem natural (NLP) para prontuários, validação de modelos de IA, métricas clínicas (sensibilidade, especificidade, AUC), ética em IA, regulamentação (PL 2.338/2023).

Bloco 3: Integração e conclusão (9º e 10º semestres)

Disciplinas Eletivas e Tópicos Especiais

Os últimos semestres oferecem flexibilidade para aprofundamento em áreas de interesse. Eletivas comuns incluem: Robótica Médica, Nanotecnologia, Bioimpressão 3D, Neuroengenharia, Interface Cérebro-Computador, Gestão de Projetos de Inovação, Empreendedorismo em Saúde, Realidade Aumentada em Cirurgia.

Estágio Supervisionado

Mínimo de 160 a 168 horas em ambiente hospitalar, industrial ou de pesquisa. Deve ser realizado sob supervisão de profissional habilitado e acompanhamento de professor orientador. O relatório de estágio é parte da avaliação.

Trabalho de Conclusão de Curso (TCC)

Geralmente dividido em TCC 1 (proposta, revisão bibliográfica e desenvolvimento) e TCC 2 (conclusão e defesa perante banca). Envolve aplicação prática dos conhecimentos adquiridos em um projeto original.

Atividades Complementares

100 a 200 horas ao longo do curso, incluindo: participação em congressos (CBEB, Feira Hospitalar), iniciação científica, projetos de extensão, cursos extracurriculares, competições (BioChallenge), monitorias e trabalho voluntário em tecnologia para saúde.

Áreas de concentração por universidade

Cada instituição organiza suas ênfases de forma diferente:

Universidade Ênfases / Áreas de concentração
UFABC Sinais e Imagens, Biomecânica e Biomateriais, Sistemas Inteligentes, Instrumentação para Diagnóstico e Terapia
UFPE Instrumentação, Computação Biomédica, Informática em Saúde, IA
PUC-PR Engenharia Clínica, Informática em Saúde, Instrumentação
INATEL Telecomunicações aplicadas à saúde, Instrumentação, IoT médico
UFU Instrumentação, Processamento de Sinais, Engenharia Clínica

Disciplinas exclusivas da Engenharia Biomédica

Para quem compara com outras engenharias, estas são as disciplinas que só existem (ou existem com ênfase muito diferente) na Engenharia Biomédica:

  • Anatomia Humana e Fisiologia
  • Instrumentação Biomédica
  • Engenharia Clínica
  • Biomecânica
  • Biomateriais e Biocompatibilidade
  • Processamento de Imagens Médicas
  • Engenharia de Tecidos
  • Regulação de Dispositivos Médicos (ANVISA)
  • Metrologia Biomédica
  • Modelagem de Sistemas Biomédicos
  • Biofísica
  • IA aplicada à Saúde (com foco em dados médicos)

Ferramentas e softwares usados ao longo do curso

Ferramenta Uso principal
Python Análise de dados, machine learning, processamento de sinais e imagens
MATLAB/Simulink Processamento de sinais, modelagem, simulação
C/C++ Sistemas embarcados, firmware de dispositivos
SolidWorks / AutoCAD Projeto mecânico de dispositivos e próteses
Arduino / ESP32 / ARM Prototipagem de instrumentação
ImageJ / 3D Slicer Processamento de imagens médicas
TensorFlow / PyTorch Deep learning para IA em saúde
LabVIEW Aquisição de dados e instrumentação virtual
COMSOL / ANSYS Simulação por elementos finitos (biomecânica, campos eletromagnéticos)
DICOM Viewers Visualização de imagens médicas

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Publicado por engenhariabiomedica.com · Assine nossa newsletter

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