A pesquisa brasileira em Engenharia Biomédica está longe de ser apenas acadêmica — ela já produziu tecnologia com clearance FDA, algoritmos de IA que analisam milhares de exames por dia e ventiladores pulmonares que salvaram vidas em mais de 40 países. Dos laboratórios pioneiros da COPPE/UFRJ aos centros de inteligência artificial em saúde da UFMG, este artigo mapeia os principais polos de pesquisa do país, suas linhas de investigação e como acessá-los.
Este artigo faz parte do Guia Definitivo de Engenharia Biomédica.
O cenário da pesquisa em Engenharia Biomédica
O Brasil possui um ecossistema de pesquisa em EB distribuído entre universidades públicas, centros de inovação hospitalares, institutos SENAI e unidades EMBRAPII. Embora a maior parte da pesquisa esteja concentrada no eixo Sul-Sudeste, há centros relevantes em todas as regiões.
O financiamento vem de múltiplas fontes: FAPESP (São Paulo), CNPq (nacional), FINEP, EMBRAPII, CAPES (bolsas de pós-graduação), fundações estaduais (FAPEMIG, FAPEPE, FAPERJ) e, crescentemente, parcerias com o setor privado.
Centros de excelência
1. PEB/COPPE/UFRJ — O berço da Engenharia Biomédica brasileira
| Dado | Detalhe |
|---|---|
| Instituição | Universidade Federal do Rio de Janeiro |
| Fundação | 1971 |
| Conceito CAPES | 6 (Excelência) — o mais alto da área |
| Formados | 509+ mestres, 165+ doutores |
| Localização | Ilha do Fundão, Rio de Janeiro/RJ |
O Programa de Engenharia Biomédica da COPPE é o programa mais antigo e mais bem avaliado da área no Brasil. Em mais de 50 anos de operação, formou a maioria dos pesquisadores e docentes que fundaram programas em outras universidades.
Linhas de pesquisa: Processamento de imagens e sinais biomédicos, engenharia pulmonar e de terapia intensiva, ultrassom biomédico, instrumentação biomédica, modelagem computacional.
Destaques recentes: Modelagem computacional de pulmões para otimização de ventilação mecânica, processamento avançado de imagens cerebrais, desenvolvimento de sistemas de ultrassom.
Como acessar: Processo seletivo para mestrado e doutorado (semestral). Iniciação científica para alunos de graduação da UFRJ e de outras instituições.
2. CEB/UNICAMP — Imagens médicas e IA
| Dado | Detalhe |
|---|---|
| Instituição | Universidade Estadual de Campinas |
| Fundação | 1982 (atividades desde 1974) |
| Localização | Campinas/SP |
O Centro de Engenharia Biomédica da UNICAMP é referência em processamento de imagens médicas e física médica. Abriga o MICLab (Medical Image Computing Laboratory), liderado pela pesquisadora Letícia Rittner.
Linhas de pesquisa: Aceleração de ressonância magnética com IA (até 4x mais rápido), segmentação e análise de imagens cerebrais, quantificação de imagens médicas, física médica, instrumentação.
Destaques recentes: O MICLab desenvolveu técnicas de IA que reduzem o tempo de aquisição de ressonância magnética em até 4 vezes, mantendo qualidade diagnóstica — uma inovação com potencial de impacto global, reduzindo custos e aumentando acesso.
Publicação histórica: A Revista Brasileira de Engenharia Biomédica (hoje Research on Biomedical Engineering — RBE), principal periódico da área no país, foi lançada no CEB em 1982.
3. LEB/USP — Instrumentação e normalização
| Dado | Detalhe |
|---|---|
| Instituição | Escola Politécnica da USP |
| Fundação | 1981 |
| Localização | São Paulo/SP |
O Laboratório de Engenharia Biomédica da Poli/USP foi fundado por André Fábio Kohn e José Carlos Teixeira Moraes. Possui 8 linhas de pesquisa e criou a primeira Divisão de Ensaios e Normativos em universidade pública brasileira para avaliação de equipamentos médicos.
Linhas de pesquisa: Instrumentação biomédica, processamento de sinais neurais, modelagem neuromuscular, avaliação de conformidade de equipamentos médicos, engenharia de reabilitação.
Conexão hospitalar: O LEB tem proximidade com o InovaHC (hub de inovação do Hospital das Clínicas da FMUSP), o maior complexo hospitalar da América Latina, que abriga 30+ startups residentes.
4. CIIA-Saúde/UFMG — Inteligência artificial em saúde
| Dado | Detalhe |
|---|---|
| Instituição | Universidade Federal de Minas Gerais (coordenação) |
| Fundação | ~2020 |
| Parceiros | 8 instituições |
| Localização | Belo Horizonte/MG |
O Centro de Inteligência Artificial em Saúde reúne pesquisadores de 8 instituições e combina expertise em ciência da computação, engenharia e medicina.
Destaques recentes: O Centro de Telessaúde do HC-UFMG analisa ~4.000 ECGs por dia com auxílio de IA, com publicações na Nature Communications sobre diagnóstico cardiovascular automatizado.
5. IEB-UFSC — Engenharia biomédica no Sul
| Dado | Detalhe |
|---|---|
| Instituição | Universidade Federal de Santa Catarina |
| Localização | Florianópolis/SC |
Linhas de pesquisa: Instrumentação biomédica, processamento de sinais, engenharia clínica, informática em saúde, telemedicina.
Diferencial: Forte colaboração com o setor industrial de Santa Catarina (polo tecnológico de Florianópolis e Joinville, onde a Siemens Healthineers investiu R$ 50 milhões em fábrica).
Centros de pesquisa em universidades
UFPE — Computação biomédica e IA
Lidera o projeto Saúde Inteligente (R$ 14,7 milhões da FINEP), aplicando IA e IoT ao Hospital das Clínicas da UFPE. A DiagÁgil, spin-off da UFPE, é exemplo de transferência tecnológica.
USP São Carlos — Bioengenharia interunidades
PPG Interunidades em Bioengenharia (EESC/FMRP/IQSC). Proximidade com o SUPERA Parque (74 empresas) e a brain4care (clearance FDA).
UFU — Instrumentação e sinais
Referência em instrumentação biomédica e processamento de sinais.
UFRN — Neuroengenharia
O Instituto do Cérebro da UFRN, fundado por Miguel Nicolelis, é referência mundial em interfaces cérebro-computador.
Centros de inovação hospitalares
InovaHC (HCFMUSP) — 30+ startups residentes, acesso a dados clínicos, validação hospitalar.
Eretz.bio (Einstein) — 150+ startups aceleradas, 27 tecnologias incorporadas ao hospital.
Instituto de Pesquisa Sírio-Libanês — Primeira telecirurgia robótica do Brasil (2024).
Horizontes Hub (Unimed-BH) — R$ 60 milhões para investir em startups (4 anos).
Institutos SENAI e EMBRAPII
SENAI CIMATEC (Salvador/BA) — Manufatura avançada e robótica aplicadas à saúde.
EMBRAPII — R$ 150 milhões em parceria com Ministério da Saúde (2025) para inovação em dispositivos médicos. Financia até 50% dos projetos (não reembolsável).
Financiamento da pesquisa
| Fonte | Tipo | Valor típico |
|---|---|---|
| FAPESP (SP) | Auxílio Regular, Temático, PIPE | R$ 50k-5M |
| CNPq | Universal, Bolsa Produtividade | R$ 30k-500k + bolsa |
| CAPES | Bolsas mestrado/doutorado | R$ 2.100-3.100/mês |
| FINEP | Subvenção, crédito | R$ 500k-15M |
| EMBRAPII | Não reembolsável (até 50%) | R$ 150k-5M |
| Parcerias industriais | P&D com empresas | Variável |
Como acessar os centros
Iniciação Científica: A partir do 3º-4º semestre. Programas PIBIC (CNPq) e FAPESP IC. Contate diretamente o pesquisador.
Mestrado/Doutorado: Processos seletivos semestrais. Identifique o orientador antes de se inscrever.
Colaboração empresa-academia: Unidades EMBRAPII e hubs hospitalares facilitam parcerias.
Volte ao Guia Definitivo de Engenharia Biomédica para explorar todas as seções.
Publicado por engenhariabiomedica.com